"Nao sei como comecar esta carta, nem sei se ela fara' algum sentido, mas preciso de te transmitir tudo o que ficou por dizer, antes que rebente de ma'goa e de tristeza, antes que os dias se sucedam num absurdo tao vazio e idiota que perca a vontade de viver.
Aceito a tua partida inesperada e a tua fu'ria. Ambas saoo justifica'veis, mas permite-me deixar-te nestas que serao certamente as ultimas palavras que tera's de mim, uma explicacao nas folhas de papel que agora te escrevo e que sao o u'nico caminho ate' ti.
Ensinaste-me que a verdade nunca e' exacta, que cada realidade encerra em si mesma tantas verdades quantas pessoas nela envolvidas. Por isso sempre preferiste a du'vida ao conflito. Detesta o conflito e nisso e's parecido comigo. Nisso e noutras coisas, mas nao e' para falar daquilo que nos une que te escrevo. Se assim fosse, estaria ao teu lado a dizer-te coisas que ja' sabes, so pelo prazer de te as dizer, como tantas e tantas vezes fazem aqueles que se amam, numa doce repeticao que fortalece o amor, como quem rega uma planta todos os dias e a ve-la crescer no silencio de um parapeito desamparado e solita'rio.
Mas escrevo-te pela razao oposta, em nome de tudo aquilo que nos separa. Talvez haja mais sentido nas nossas semelhancas do que nas nossas indiferencas. Essas, aproximam-nos mais do que julgas, porque e' da diferenca e da complementaridade que nascem as melhores relacoes. Claro que, para que elas nascam e crescam, teem que sobreviver ao conflito, 'a luta, tantas vezes dura e implaca'vel, mas sempre necessa'ria.
(...) Toda a nossa existencia tem por condicao a infidelidade a nos pro'prios. Fui na minha vida muitas vezes infiel a mim pro'pria, quando me recusava a escutar o meu pro'prio coracao.
(...) Mas, talvez porque sou de mim mesma o meu maior carrasco, posso debrucar-me sobre estas folhas para te falar nao da verdade, mas da minha verdade, aquela que carrego no coracao. Ha' muitos anos aprendi que a verdade esta naquilo que se sente(...). Olho para tra's e vejo com tristeza os erros que contaminaram as recordacoes do tempo em que ainda nao os havia cometido e isso faz-me sentir culpada de coisas que nao fiz.(...)
O primeiro erro que cometi foi ter-me apaixonado por ti. Nao sei ainda hoje explicar o que me aconteceu. E' como se de repente tivesse sai'do de dentro de mim pro'pria e assistisse ao desenrolar da paixao que crescia desmesuradamente, sem que nada pudesse fazer para o evitar. Talvez, sem quereres ou saberes, tenhas tocado nos pontos cardeais da minha inseguranca e deles se tivesse acendido uma luz que segui, cega e surda, comos os insectos numa noite de verao 'a volta de uma lampada que algue'm se esqueceu de apagar. Mas o amor e' mesmo assim: absoluto, estu'pido e tudo menos sensato. Ou talvez me tenha apaixonado apenas pela tua imagem e, quando te tornaste real aos meus olhos, te tenha adaptado a um ideal humanamente perfeito, 'a luz do meu desejo. De qualquer forma apaixonei-me por ti e esse foi o erro primordial, o primeiro de todos, provavelmente o u'nico importante. Os outros erros nunca se teriam dado se este primeiro nao tivesse crescido como uma bola de neve perdida numa avalanche. E cada um encerra o seu miste'rio que nem o pro'prio entende. E' por isso que ao sermos espectadores da nossa pro'pria existencia, sofremos quando a vemos caminhar para onde nao queremos ir, mas assistimos impuvidos e impotentes ao curso natural das coisas.
O segundo erro, e deste assumo toda a culpa, foi nao te ter escondido que te amava. Queria-te tanto que pensei que isso te obrigava a amar-me. Como fui burra e infantil. (...) levanto-me as vezes que for preciso, mas nao paro nunca, a nao ser que o caminho se feche. Quando foste embora, percebi que a tua porta se tinha fechado para sempre. Anto'nio Lobo Antunes, diz que o coracao quando se fecha faz muito mais barulho do que uma porta, e acredita, oico ainda o barulho do teu silencio, como uma pedra encostada a garganta. (...)
O terceiro erro, ja' te disse qual foi. Cai'mos num duplo equivoco: nunca acreditaste que eu gostasse de ti e sempre gostei; nunca acreditei que nao me amasses e afinal nao chegaste sequer a gostar de mim. No amor, os homens sao paranoicos e as mulheres obsessivas. Eles nao acreditam no amor delas e elas nao admitem a falta de amor deles. Tu e eu fomos apenas mais um caso entre tantos milhoes e mais uma vez a histo'ria repetiu-se.(...)
Eu cometi ainda outro erro ao me calar, ao nao te ter dito desde o primeiro instante tudo aquilo que pensava. Sempre achei que o silencio acabaria por estoirar a nossa relacao. (..)
Tu e's frio, cerebral, foges dos sentimentos como uma crianca de um cao grande. O teu cinismo e indecisao em relacao ao amor criaram-te uma carapaca da qual nem tu pro'prio te consegues libertar.
Nao renego o amor que tive por ti, mas nao aceito a tua intolerancia, a facilidade com que julgas os outros, a leviandade com que me condenaste.
Amei-te de uma forma desajeitada, arrebatadora e incondicional, sempre querendo e desejando o melhor para ti. O melhor, so' tu mesmo podera's encontrar e hoje estou certa de que nao passa por mim.
Nao e' a dor da rejeicao que me massacra, e' a dor de saber que nada podera' sobrar deste amor. Que a amizade nao tem espaco nem voz entre duas pessoas que desconfiam uma da outra com a facilidade de um inquisidor contratado a soldo.
Cada vez mais acredito que amar e' dar e tudo o que nao e' dado, perde-se. E que a amizade e' talvez a mais bela forma de amor, porque e' gratuita e intemporal, nao precisa de promessas nem de carne, nao se desfaz com zangas nem se desvirtua com o tempo.
Mas nao te posso dar o meu carinho, o meu afecto, o meu amor domesticado em amizade, se nem sequer tens a grandeza de abrir os bracos para a receber. As mulheres demoram algum tempo a transformar um sentimento em pensamento, tanto mais qd este e' profundo, e no sossego da minha casa, onde so' comunico com o mundo exterior o suficiente para me manter viva, guardo intacto tudo o que sinto por ti, fechada para o mundo e para os outros, sinto-me cada vez mais so', mergulhada numa escuridao volunta'ria e este'ril que me aplaca a vontade e os sentidos.
Mas e melhor que nunca mais se cruzem os nossos olhares, e melhor que a palavra adeus seja mesmo essa e nao outra. Chegamos ao fim do caminho. A partir daqui todas as palavras serao inu'teis.
Nunca saberei ate' que ponto ages com o coracao ou apenas com a cabeca. Ate' que ponto te entregas ou apenas jogas. Ate' que ponto sentes e ages, ou apenas observas. E e' por nunca ter sabido quem e's, que um dia te conseguirei esquecer.
Sempre disse que as diferencas iriam servir mais para nos unir do que para nos afastar. Mas agora sei que nao. Ao contra'rio de ti, nao sou, nem nunca serei, espectadora da minha pro'pria vida."
Margarida Rebelo Pinto